-Sacode
a poeira, puxa a cadeira e a garrafa de jurubeba, imbalança
e se esbalde com estes desopilantes causos do nosso herói, cumpadre!
"O grande músico
e cantor Sérgio Ricardo era da opinião que ‘em toda mentira
que se
conta há
verdade dentro, assim como em toda verdade há mentira dentro’,
o que parece ser
o caso do causo em questão.”
.
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Certa
vez, o Civilico, lá no bar do seu Antônio, no bairro Cascata,
alardeava entre uma roda de pessoas as grandes pescarias que fizera ali
naquele rio. Os ouvidos atentos, as bocas abertas, os olhos curiososos,
até mesmo um cachorro juntara-se à roda e prestava atenção
no grande contador de causos. Mesmo o papagaio tagarela, lá
no seu poleiro, resolveu fechar o bico.
-Oceis pode tê certeza, meus amigo, as tarrafada mais famosa qui
alguém já deu nessas água aí do Guaçu,
foi fruto dessas mãos aqui — ói, mãos cheia de calo
brejero! E a melhor delas foi sábado passado. O
papagaio quebrou seu silêncio:
-Pode contá já, seu Civilico, que tudu mundo já tá
louco pra ouvi!
-Foi o seguinte: eu ia desceno o rio, procurano um lugar tranqüilo
onde pudesse fazê uma boa pescaria e acabei encontrano um remanso
qui me cheirava a traíra. Encostei minha canoa perto
da margem, deitei poita e me pus a lançá a rede nas água.
Mai, meus amigo, bastô uma só tarrafada e eu não precisei
mai continuá pescano; tive a impressão de qui pesquei um
cardume interinho só numa tarrafada. Peguei cinqüenta
e cinco traíra de quase um quilo cada! Tive até qui
dexá a bicicreta aqui no bar e pegá uma carona, porque o
saco de peixe tava muito pesado. As
exclamações de espanto ecoaram pelo bar.
- Ô loco, mai qui sorte danada!
- Caramba, é peixe pra mai de metro!
-Ah, vai tarrafá bem assim lá nos cafundó-do-judas!
Nesta época ainda não existia a guarda florestal, mas, por
infelicidade do Civilico, estava ali naquela roda de conversa, nada mais,
nada menos que o fiscal de pesca do Estado, responsável por aquele
trecho de rio, que, percebendo no nosso herói o desconhecimento
das leis, decidiu intimá-lo:
-Hei, você aí que está contando esta história,
você não sabe que hoje em dia é proibido pescar com
tarrafas aqui no rio Mogi Guaçu?
-Sei não, ninguém nunca me disse nada aqui nesse fim de mundo.
-Isso é uma atividade predatória punível com multa!
-Ô, diacho!
-E o senhor também sabe com quem está falando?
-Não.
-Com o fiscal de pesca estadual, responsável por esta região!
O Civilico engoliu seco, afrouxou o lenço do pescoço e, temendo
se meter em complicações, arrumou um jeitinho de contornar
a situação:
-E o senhor, seu fiscal, também sabe cum quem tá falano?
-Não.
- Com o maior mentiroso desse pedaço de chão! O
papagaio lá do alto do seu poleiro decidiu abrir o bico e intervir:
-Ô, seu fiscal, o senhor num ouviu falá do Civilico, não?
.
“Spurgeon, Charles
Haddon e James Callaghan disseram: ‘A mentira dá a volta ao globo
enquanto a verdade calça as botas’. Não se sabe quem era
o verdadeiro autor da frase e qual dos três estava mentindo
, mas, vejam a surpresa que o Civilico teve ao retornar ao seu pesqueiro
predileto após o globo ter dado muitas voltas.”
.
.
Tempos
outrora, após findar mais uma semana regada por aquelas intermináveis
chuvinhas nhenhenhém, que fazem os rios ficarem com a cor da própria
terra, nosso herói, já com uma saudade danada das barrancas
do Guaçu, decidiu fazer mais umas de suas famosas pescarias. Quando
a anteaurora se anunciou no gorgeio suave e agradável da maria-é-dia
que cantava lá no alto da mangueira, ele tomou um trago de café,
colocou sua tralha na bicicleta e partiu.
Lá chegando, mal se instalou na barranca do rio, viu uma gigantesca
torrente de siriruias sobrevoando silenciosamente o leito do velho Guaçu.
Eram milhões de insetos na dança do acasalamento, ritual
que em breve findaria, vindo todos, após cumprida a missão,
cairem mortos pelas águas servindo de repasto à ávida
peixama.
-Ih, lá se foi minha pescaria pras cucuia! É ceva dimais
pra pouco peixe! Mesmo notando que sua pescaria poderia
ser baldada, ele, ainda assim, decidiu praticar seu predileto hobby.
Pescou por mais de meia hora e nada — os peixes já fartos de comer
siriruias não queriam saber de minhocas.
Mas na primeira fisgada que conseguira dar, notou pelo tranco que o peixe
era grande e, qual não foi sua surpresa ao retirar com esforço
espartano um pequeno tronco das águas. Ele soltou o anzol e, com
raiva, espalmeou o tronco e arremessou-o com toda força no chão
à distãncia.
-Desgraça! Já de cara eu pego um enrosco desse!
Como se sujara de água embarreada ao arremessar o tronco no chão,
ele tirou seu estimado relógio do bolso e o pendurou no galho de
uma pequena árvore que crescia ao lado do seu pesqueiro.
Nisto, vê surgir detrás de uma moita, o danado do Pedro Malazartes,
que foi logo cumprimentando o nosso herói:
-Meus parabéns, seu Civilico, bela pescaria!
-Bela pescaria, por quê?
-Bem...até agora pouco o senhor só estava dando banho em
minhoca...
Nosso herói se remoueu por dentro.
-... mas dá uma olhada no tronco que o senhor malhou no chão
ali atrás.
Junto aos restos do tronco espatifado no chão, estavam meia dúzia
de gordas traíras que haviam se abrigado no seu ôco, após
se fartarem de siriruias...
-Ô, diacho, num é à toa qui o tronco tava tão
pesado!
-E aquela vara de espera armada ali mais para baixo no barranco, Civilico?
Posso dar uma olhada nela?
Nosso herói sabendo que a vara não tinha anzol, pois a linha
havia se rompido numa fisgada, resolveu aprontar-lhe uma...
-Fique à vontade, seu Malazartes.
O rei das presepadas se intrigou, quando ao puxar a vara, notou que ela
estava sem anzol:
-Oras, seu Civilico, onde já se viu pescar sem anzol! O senhor tá
ficano gagá!
-Não tem probrema, não, seu Malazartes, esse pesqueiro aí
não tem peixe nenhum mesmo...
Agora foi a vez do danado do Malazartes se remoer por dentro.
-É seu, Civilico, mas sua pescaria não vai durar muito, não.
Dá uma olhada no tempo feio que está se formando aí
atrás.
-Ô, diacho, num é à toa qui o meu calo tava latejano!
O jeito foi guardar a tralha e retornar à cidade. A chuva forte
veio no seu encalço.
Ao chegar na cidade, ele parou no bar do Juviliano para tomar um trago.
Este reparou que só o bagageiro onde estava a tralha de pesca estava
molhado.
-Civilico, você notou que só a parte de trás da
sua bicicleta está molhada? Por quê isso?
-Deve sê pur causa da velocidade qui eu vim. A chuva só conseguiu
alcançá o bagagero...
Entre uma talagada e outra, nosso herói se deu conta de que esquecera
seu relógio lá na beira do rio.
-Ô, desgraça, seu Juviliano, na pressa que eu vim, acabei
esqueceno meu relógio pendurado num arbusto lá na bera do
Guaçu!
-Ah, Civilico, com essa tempestade de chuva e vento que tá caindo,
o seu estimado relógio de bolso já era.
Anos se passaram e o nosso herói volta a pescar naquele mesmo lugar.
O cenário era o mesmo, com excessão de algumas árvores
que tinham crescido bastante.
Novamente ele se depara com duas coisas inesperadas: outro turbilhão
daqueles insetos — as siriruias a sobrevoar as águas, e... o danado
do Malazartes que acabava de chegar.
O famoso mentiroso ficou só olhando o Civilico pescar, e dando palpites
incovenientes:
-Ô, seu Civilico, o senhor só fica aí pescando sózinho
e dando banho em minhocas! Por que o senhor não troca de lugar:
E o nosso herói com uma resposta na ponta da língua:
-Trocá de lugar eu quero, mai cum quem?
O Malazartes, dando-se por vencido, pegou sua trouxa e resolveu partir.
O Civilico continuou tranqüilo em seu sagrado ofício.
Súbito, um papagaio veio sentar-se no alto da árvore próximo
onde ele estava, e lá de cima, o psitacídeo matraqueiro começou
a alardear:
-São nove horas, seu Civilico! São nove horas seu Civilico!
-Qui papagaio louco! Como é qui ele sabe o meu nome?!
Nisto, o papagaio sai voando e ele repara em algo brilhando lá no
alto de um galho onde o papagaio estava pousado. Curioso ele decidiu subir
na árvore e ir lá conferir.
E não é que aquela árvore era a mesma da última
pescaria que era apenas um arbusto e agora crescera! Ele se aproximou do
galho e lá encontrou o seu velho relógio brilhando aos raios
do Sol... funcionando e marcando as horas!
Quando retornara à cidade, o primeiro lugar que parou foi o bar
do Juviliano.
-Seu Juviliano, encontrei meu relógio. Ói ele aqui! Ele
tava pendurado lá naquela mesma arve em qui eu havia colocado ele,
na ultima pescaria qui fiz. Ele tava intacto e funcionano!
-Mas como ele estava funcionando após tanto tempo?
-Acontece — retrucou o Civilico —, que havia um cipozinho encostado
no botão de dá corda e, a medida qui o cipó crescia,
ia esfregano no botão, sempre dano corda, sem nunca deixá
o relógio pará!
.
“O ilustre padre
Viera sentenciou num sermão: ‘A mentira é filha primogênita
do ócio. Quem está
ocioso nada tem
mais que fazer senão pôr-se a imaginar.’ Ele estava coberto
de razão —
vejam a fértil
imaginação do Civilico em suas horas de ócio.”
.
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Corria
o ano de 62 e estava no ar a recém-inaugurada primeira emissora
da cidade — a Rádio Clube Ararense. Ocorre que o nosso herói
adorava ouvir modas de viola, porém não possuia um rádio
para tal, e música, só mesmo ao vivo.
Naquele tempo, o rádios portáteis transistorizados eram uma
novidade, e como o Colêra havia comprado um, e possuia um daqueles
rádios à válvula velho mas conservado, sobrando
nos estúdios da rádio, resolveu com ele fazer um presente
ao notável potoqueiro, pois soube que ele não tinha um, e
gostava muito de ouvir as modas de seu trio nos festivais em que eles participavam.
E assim o fez.
-Civilico, meu amigo, este é um presentinho meu pra você.
É de coração!
-Mai eu num tô fazeno aniversário, Colêra!
-Eu sei, mas abre aí — é uma surpresa.
O Civilico abriu o pacote.
-Qui qui é isso,Colêra, um rádio! Bondade demai de
sua parte! Nem sei como ti agradecê!
-Que nada, Civilico, deixa pra lá. O que importa é que, com
ele, você vai poder ouvir todo dia o meu trio de moda caipira — o
Colêra, Campinho e Vicentinho no programa do Compadre Geremias, e
também dar muita risada com o humor do Capitão Siqueira e
da Nhá Rita.
-Ô, que beleza, Colêra, muito obrigado. Vou ficá te
deveno urn favorzão!
-Que nada, esqueça! Só o fato de você estar prestigiando
a minha música, basta. É o preço de nossa amizade!
-Igual ocê num existe, Colêra!
-E não é só as músicas do meu trio que você
vai poder ouvir não, Civilico — este rádio aí
pega todas as estações!
- Tudo bem, Colêra, mas eu só gosto do Outono... Ambos cairam na risada.
-Então, meu amigo, você não vai ligar ele pra
conferir?
-Eu nunca mexi com essas coisa, Colêra.
-Ondé está a tomada? Eu não estou vendo nenhuma aqui
nesta sala.
-Tá lá no fundo do quintal. -No fundo do quintal!
-Peraí, qui eu vou buscá. Passou-se
uns instantes e o nosso herói voltou e entrou na sala com um um
porco enorme, de corpo comprido fino e de pernas curtas.
-O que que é isso, homem? Pra que este porco esquisito aí
, meu Deus do céu?!
-Parece um porco bassê, num parece?
-Sim, mas o que é que você vai fazer com ele?
-E prá ligar o rádio, oras!.
-Ligar o rádio, que é isso?! Nisto,
o nosso herói pegou o plugue e enfiou no focinho do porco. O Colêra
torceu a boca e franziu a testa que nem uma sanfona, mas resolveu entrar
na brincadeira — ligou o botão e de repente — zuímmm... O
rádio ligou!
O
Colêra ficou boquiaberto e desabafou:
-Nossa Senhora, Civilico, onde você arrumou esse bicho aí?!
-Ói, Colêra, quando eu num tenho o qui fazê, eu fico
inventano uns cruzamento aí no meu quintal...
-Cruzamentos! Cruzamentos de que, homem de Deus?!
-Bem... nesse caso foi porco com peixe elétrico... O assombro do Colêra só foi
quebrado quando no velho rádio, ouviu-se o célebre
Capitão Furtado anunciando o último dia do programa "Arraial
da Curva Torta".
-Gostou
da pequena amostra,
cumpadre? Agora,
que tal comprar o livro
e se deliciar com os
outros 29 causos! .