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"CAIPIRADAS"
*Texto do ensaista Antonio Cândido
para o disco "Caipira, Raízes e Frutos"

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"CAIPIRA PICANDO FUMO" (Guilherme de Almeida-1882)
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      Este disco põe o ouvinte no centro de um mundo cultural peculiar, que está se acabando por aí: o mundo caipira.
     A gente que vive na cidade procurou sempre adotar modos de ser, pensar e agir que lhe pareciam os mais civilizados, os que permitem ver logo que uma pessoa está acostumada com o que é prescrito de maneira tirânica pelas moda moda na roupa, na etiqueta na escolha dos objetos, na comida, na dança, nos espetáculos, na gíria. A moda logo passa; por isso, a gente da cidade deve ,e pode mudar, trocar de objetos e costumes, estar em dia. Como conseqüência, se entra em contacto com um grupo ou uma pessoa que não mudaram tanto assim; que usam roupa como a de dez anos atrás e respondem a um cumprimen-
to com certa fórmula desusada; que não sabem qual é o cantor da moda nem o novo jeito de namorar; quando entra em con-
tacto com gente assim, o citadino diz que ela é caipira, querendo dizer que é atrasada e portanto meio ridícula. Diz, ou dizia; porque hoje a mudança é tão rápida que o termo está saindo das expressões de todo o dia e serve mais para designar certas sobrevivências teimosas ou alteradas do passado: música caipira, festas caipiras, danças caipiras, por exemplo. Que, aliás, na maioria das vezes, conhecemos não praticados por caipiras, mas por gente que finge de caipira e usa a realidade do seu mundo como um produto comercial pitoresco.
    Nem podia ser de outro modo, porque o mundo em geral está mudando depressa demais neste século, e nada pode ficar parado. Hoje, creio que não se pode falar mais de criatividade cultural no universo do caipira, porque ele quase acabou. O que há é impulso adquirido, resto, repetição - ou paródia e imitação deformada, mais ou menos parecida. Este disco é um esforço para fixar o que sobra de autêntico no mundo caipira, através da difícil permanência ou da modificação normal, devida à influência inevitável da cultura das cidades.
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Antigos modos de falar
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    Aliás, a cultura do caipira não é nem nunca foi um reino separado, uma espécie de cultura primitiva independente, como a dos índios. Ela representa a adaptação do colonizador ao Brasil e portanto veio na maior parte de fora, sendo sob diversos aspectos sobrevivência do modo de ser, pensar e agir do português antigo. Quando um caipira diz "pregunta", "a mo' que", "despois", "vassuncê", "tchão" (chão), "dgente" (gente), não está estragando, por ignorãncia a língua portuguesa; mas apenas conservando antigos modos de falar que se transformaram na mãe-pátria e aqui. Até o famoso "erre retroflexo" o "erre de Itur" ou "de Tieter", que se pensou devido à influência do índio, viu-se depois que pode bem ter vindo de certas regiões de Portugal. Como vieram o desafio, a fogueira de São João, o compadrio, o jogo de cacete, a dança de São Gonçalo, a Festa do Divino, a maioria das crendices, esconjuros, hábitos e concepções. Quantas vezes ouvi caipiras "improvisando" na viola quadras bonitas que anos depois encontrei em coleções de folclore português! Lá por 1946, creio que num sítio perto de Rio das Pedras, me senti transfixado pelos versos admiráveis de um deles sobre a dureza da Virgem Maria, recebendo no seio o Espírito Santo sem a mancha do nosso velho pecado. Mais tarde, numa coletânea de poesia popular portuguesa, li quase a mesma coisa, identificando a fonte que o cantador ignorava tanto quanto eu e com a qual se comunicava por participar na seqüência de uma longa tradição.
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Origem paulista
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    Portanto, é preciso pensar no caipira como um homem que manteve a herança portuguesa nas suas formas antigas. Mas é preciso também pensar na transformação que ela sofreu aqui, fazendo do velho homem rural brasileiro o que ele é, e não um português na América. "Tabaréu", "matuto", "capiau", "caipira" ou o que mais haja, ele é produto e ao mesmo tempo agente muito ativo de um grande processo de diferenciação cultural própria. No Norte, talvez esteja mais perto do português pela língua e a tradição, apesar da mistura maior com as raças ditas de cor. No Sul está mais afastado, mais transformado pela contribuição do índio. Na extensa gama dos tipos sertanejos brasileiros, poderia ser considerado "caipira" o homem rural tradicional do Sudoeste e porções do Centro-Oeste, fruto de uma adaptação da herança portuguesa, fortemente misturada com a indígena, às condições f isicas e sociais do Novo Mundo.
    Na verdade o caipira é de origem paulista. É produto da transformação do aventureiro seminômade em agricultor precário, na onda dos movimentos de penetração bandeirante quc acabaram no século XVIII e definiram uma extensa área: São Paulo, parte de Minas e do Paraná, de Goiás e de Mato Grosso, com a área afim do Rio de Janeiro rural e do Espírito Santo. Foi o que restou de mais típico daquilo que um historiador grandiloqüente mais expressivo chamou de "Paulistania".
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Relógio natural
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Nessa linha de formação social e cultural o caipira sefine como um homem rústico de evolução muito lenta. tendo por formula de equilíbrio a fusão intensa da cultura portuguesa com o aborígine e  conservando a fal, os usos, as técnicas, os cantos, as lendas que a cultura da cidade ia destruindo, alterando essencialmente ou caricaturando. Não se trata, portanto, de um ser à parte mas de um irmãoo mais lerdo para quem o tempo correu tão devagar que freqüentemente não entra como critério de conhecimento,e que em pleno século XX podia viver, em parte, como um homem deo século XVIII. Quem esteve em contacto com ele sabe, por exemplo, o quanto é impreciso sobrre a própria idade e como não consegue por datas na lembrança, além de não saber o que se passa na sociedade maior, cujos sinais podem estar ao seu lado sob a forma de jornal que ele não lê, de cinema quc não vê, de rádio que não escuta, de trern que não  toma. "Como vai o nonagenário nhô Samuel Antônio de Camargo, nascido no Rio Feio, atual Porangaba. "Vai bem", respondi. E ele, com uma dúvida: "Mas não é mais aquéle veião de barba?". E eu: "Não, agora é outro, chamado Dutra".
 Em compensação, no quadro de sua cultura o caipira pode ser extraordinário. É capaz, por exemplo, de sentir e conhecer a fundo o mundo natural, usando-o com uma sabedoria e uma eficácia que nenhum de nós possui. No ano de 1954, na zona rural de Bofete, eu me atrasei para um encontro com nhô Roque Lameu, marcado para as dez horas. O meu relógio indicava dez horas e quinze minutos e eu comentei que estava desacertado. "Está pouca coisa", disse ele, "porque pelo sol deve ser nove e meia". Quando dali a pouco acertei o relógio, vi que estavá adiantado 45 minutos, e que o velho caipira não apenas calculara a hora com absoluta exatidão, mas achava que três quartos de hora não era coisa apreciável, além de não me corrigir, com a constante polidez do caboclo, lembrando que, ao contrário, eu tinha chegado antes da hora marcada.
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Intimidade com o mato
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    Com o seu perfil adunco, cor bronzeada e barba rala na face magra, nhô Roque podia ser um mameluco apurado. Do ancestral português herdara com a língua e a religião a maioria dos costumes e das crenças; do ancestral índio herdara a familiaridade com o mato, o faro na caça, a arte das ervas, o ritmo do batepé (que noutros lugares se chama cateretê), a caudalosa eloqüência no cururu.
     O cururu e a dança da Santa Cruz são dois exemplos muito bons do encontro das culturas. Parece sob influência os jesuítas, que aproveitaram as danças indígenas e o gosto do índio pelo discurso e o desafio para enxertar doutrina cristã. Nada mais caipira do que cururu e dança da Santa Cruz, que só existem em áreas de forte impregnação originária dos antigospirati-
ninganos. E nada mais misturado de elementos portugueses e indígenas como tanta coisa que observamos nas cantigas, nas histórias, nas técnicas do homem rural pobre e isolado de velha origem paulista.
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Realidade cultural
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Faz muito tempo que não ando pelos lugares perdidos do interior, e nem sei se eles ainda existem como tais depois de multiplicaçaïo das estradas de ônibus. Quando eu andava entre 1943 e 1955- o caipira ainda era uma realidade cultural defnida, apesar de ser cada vez maior a sua ligação com a cultura urbana, aceleradamente modernizada. Era espoliado e miseravel na absoluta maioria dos casos, porque, com o passar do tempo e do progresso, quem permaneceu caipira foi a parte da velha população rural sujeita às formas mais drásticas de expropriação econômica, confinada e quase compelida a ser o que fora, quando a lei do mundo a levaria a querer uma vida mais aberta e farta, teoricamente possível.
    Foi então que, o caipira se tornou cada vez mais espetáculo, assunto de curiosidade e divertimento para o homem da cidade, que, instalado na sua civilização e querendo ressaltar este privilégio, usava aquele irmão miserável para provar como ele tinha prosperado, como era triunfalmente diverso. A vida do caipira ficou sendo então, para ele próprio, uma privação terrível, porque podia ser comparado a outras situações; e para o citadino, um divertimento que lhe dava a confortável sensação de haver mudado para algo melhor e mais alto.
A partir daí, o canto e a música caipira sofreram não as influências normais e por assim dizer orgânicas que sempre sofreram das suas congêneres cultas; mas a deformação caricatural e alienante que a desfigura, e que corrompe o gosto médïo como vingança involuntária do espoliado contra o seu espoliador.
A tarefa, portanto, é procurar o que há de nele de autêntico. Autêntico não tanto no sentido impossível do originariamemte puro, porque em arte tudo está mudando sempre; mas no sentido de buscar os produtos que representem o modo de ser e a técnica poético-musical de caipira como ele foi e como ainda é; não como querem que ele seja, mais ou menos caricaturado para espetáculo dos outros.
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*O texto desta faz parte  do disco duplo"CAIPIRA, RAÍZES E FRUTOS", lançado pelo selo ELDORADO em 1980. Ele faz parte      da coletânea de ensaios RECORTES, do professor, crítico e ensaísta ANTONIO CÂNDIDO lançado em 1993 pela Cia. de Letras.

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