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CAUSOS INÉDITOS
MAIS CABELUDOS AINDA!

Aqui, cumpadre,
a comadre
Nhá Barbina
vai apresentá procêis
uns causo inédito
qui só ela sabia
e que foro tirado
do fundo do baú
do Civilico!
.
.
.

  “O tal do Ananias” ou  “Como dizia Mário Palmério: A onça fica louca quando vê um negro porque dizem que a carne é sadia e o sangue é doce...”

 
A história é do tempo do Zagaia. No cenário, nosso herói, o tio do coronel Rondom - o Miguel Evangelista e o tal do Ananias. -Quem? Ora, o Ananias! É tempo de apresentá-lo aos leitores, digo, àqueles que não o conheceram.
     Ah, o tal do Ananias! ... o famoso tipo popular da Araras antiga dos meados do século passado - um negro retinto, cômico e pachorrento, velho personagem das ruas ararenses -, tipo inesquecível que chegou mesmo a figurar nos anais de nossa história, tal como figurou nos da história do Brasil o impetuoso coronel citado acima! A história é da época em que o Ananias ainda ensaiava os primeiros passos no degradante mundo da mendicidade.
Vamos lá!

* * *
    Manhã de inverno. Céu de brigadeiro, não fosse lençóis e mais lençóis flutuantes de cerração se desmanchando à luz esmaecida do sol matutino. E lá podemos ver o tal do Ananias, já cedo - como sempre - deitado no pátio em frente à igrejinha da Santa Cruz; a cabeça apoiada lateralmente sobre a concha da mão calejada, e o pito sarrento  pendido sobre  seu beiço carnudo que sempre exibia aquele leve e enigmático sorriso.
O Civilico se aproxima.
    -Posso ajudá ocê em arguma coisa, Ananias?
    -Pode sim, Civilico, pur favô, sai da minha frente qui eu tô tomano banho de sol!
    Nosso herói riu da tirada filosófica do negro bom vivant.
    -Ananias, como eu sei qui ocê quando era moço foi um zagaieiro muito afamado e destemido no sertão do Mato Grosso, eu vim  convidá ocê pruma caçada.
    -Caçá o que?
    -Treis onça safada que tão acabano co’os gado da fazenda do governo que o tio do coronér  cuida.
    -Qui coronér?
    -O coronér Rondom.
    -Nossa, o coronér Rondom! Num precisa convidá duas veiz! Tô prontinho! Dexa eu só i buscá minha traia e minha zagaia véia!
* * *
     Pano rápido.
     Além da fazenda Três Buritis, matas, capinzais a perder de vista, alagadiços mil, paragens esquecidas nunca dantes desbravadas - matas, terras e águas virgens!... sim, posso até lhes sentir o cheiro - isosmia enlouquecedora de fauna e flora -, ah, Mato Grosso, quem te conhece!...
    Enfim, ei-los! - ali os três destemidos caçadores a varar os imensos descampados matogrossenses, escoltados por uma matilha de sete cachorros machos onceiros - todos, perfeitamente cientes de seus inalienáveis compro-
missos. O Miguel Evangelista com um facão jacaré, o tal do Ananias com sua velha zagaia (ora, vejam, uma zagaia do tempo do Zagaia!), e o Civilico com...
    -Cadê minha pexerinha de estimação?!
    Súbito aparece o Romão:
    -Tá qui, seu Civilico, o sinhor isqueceu ela lá na fazenda.
Ah, a peixeirinha de estimação do Civilico- arma, segundo ele, de fazer afronta à qualquer facão jacaré e mesmo à enorme zagaia do... tal de Ananias!
     O Miguel, toda vez que olhava de soslaio para o nosso herói, não fosse a falta de um pequeno óculos em seu rosto, julgava estar vendo o antigo companheiro de velhas caçadas  de seu sobrinho - o famigerado Theodore Roosevelt!  Bem... de talento e bravura nosso herói não carecia para chegar a tanto.
     -Óia, seu Civilico, ocê já ouviu falá do Lobo - o lobo rei do Novo México que papou uma vaca por dia por mais de meia década seguida? Courtant - o urso cotó que enlouqueceu Paris durante uma década há cinco séculos atráis? O Pé-torto - um urso cinzento que aterrorizou o Vale do São Francisco na Califórnia e a Olhos-verdes - uma pantera danada que matô quase duzentas pessoas em dois ano?
     -Sim, mas por que ocê me diz isto, Miguel?
     -É por que essa treis onça - chamada Treis Maria - num fica atráis! Elas vão acabá entrano prá essa galeria, de tão falada qui elas são! Elas arrasaro cum quilombo que tinha por aqui. Agora qui acabô os negro, elas tão atacano os muar da fazenda!
     -Fica tranqüilo, dexa elas cumigo e co’o Ananias!
    Súbito, surgida não se sabe de onde, uma cadelinha no cio se depara com a comitiva, mais precisamente, com os sete cães onceiros...
     Seria gastar palavras à toa, descrever o que aconteceu com a comitiva, digo, com os sete cães onceiros, mas em respeito aos curiosos leitores das histórias do Civilico, vamos lá.
     Em questões de sexo animal, uma rígida e espartana domesticação, não impede que um animal não resista aos fatais (e tentadores) desígnios instintivos da procriação.
    Assim se deu...
    E lá se foi, movida pelo instinto cego, a plêiade canina no encalço da lasciva cachorrinha.
    Não houve assovios, gritos de chamada ou o que quer que fosse, que impedisse a sedenta cainçalha de ser levada pelo foçinho pelos hipnóticos eflúvios amorosos lançados ao ar pela tentadora cadelinha.
    Dizem que cachorros onceiros choram e se urinam todos quando sentem catinga fresca de onça por perto. Nesse dia, como podemos notar, eles choraram por outra coisa... E lá se foram os inalienáveis compromissos...
    Nosso herói  desabafou:
    -Óia, pessoar, é como eu constatei...
    -Constatô u quê? - perguntou o Ananias - após tomar um trago daquela água que passarinho não bebe.
    -Qui prá cada cadela no cio há sete cachorro macho assanhado. Mai, num vamo si preocupá cum isso, não. Vamu caçá assim memo.
    Riu às bandeiras despregadas, o Miguel de tal colocação.
    -Isso só pode ser estatística de ararense!
* * *
    A trindade cinégética, agora desfalcada de seus... melhores amigos do homem, não teve outra alternativa, a não ser ir à caça de onça sem matilha mesmo.
    -Cambada de cachorro assanhado!
    -Desertores!
    Mal os três adentraram uma clareira em meio ao capinzal, eis que se viram cercados pelas três temíveis onças - três macharrões de fazer  Órion ou Nemrod - os lendários caçadores - tremer na base!
    Seria empate - refeição na medida - três homens para três onças -,  não fosse a contestada crença de que as onças são gulosas por carne de negro, e, quanto mais negro, mais retinto, mais azeviche  (segundo o paladar dos felinos),  mais saborosa é a carne. Assim reza a lenda...
    Os macharrões, como estivessem esfaimados, e não houvesse matilha a importuná-los, foram se aproximando e amiudando o círculo, encurralando maliciosamente os três impetuosos caçadores.
    A saída foi partir para o ataque.
    O Ananias, ao chuchar a onça que mais se aproximara dele, recebeu violenta patada na quixotesca lança, indo ela atingir uma das três onças que estava próxima ao Civilico. A onça caiu fulminada!
    -Isso! Toma pinga, Ananias! Se tomasse uma Leão do Norte, essa zagaia num ia escapá assim da sua mão!
    -Ah, num enche, Civilico! Ocê num viu qui, na verdade, era essa  onça aí qui eu quiria matá?
    Ah, o tal do Ananias...
    Restavam duas onças prestes a trucidar o trio, porém ambas, deixaram os - diríamos - dois insossos e sensaborões sertanistas (no paladar dos felinos, naturalmente), e voltaram sua atenção para o Ananias - presa fácil, uma vez que ele estava desarmado, e, pelo visto, as duas iam atacá-lo, com certeza! E mais, desde os tempos do extinto quilombo elas não se deparavam com um negro pela frente.
    Enfim, eis os quatro olhos amarelos a fitar o azeviche convidativo do retinto Ananias, em cuja face se destacavam os olhos exorbitados e os enormes dentões brancos de pérola que denotavam claramente o pavor que o assaltara.
    Nosso herói, lembrando-se da sentença do Padre Sommer: -Negro visto, por onça é negro comido - e percebendo que as onças iam disputar entre si o único manjar que as apetecia naquele momento, resolveu tomar partido.
    Quando as duas, num átimo, saltaram sobre o negro, o Civilico, mais rapidamente ainda, se agachou e passou uma rasteira no Ananias, que tombou rolando pelo chão.
    O que se ouviu depois, foi um arranca-rabo dos diabos, desfechado pelas duas onças que, num abraço fatal,  se atracaram no ar e caindo no chão, lutaram até a morte, como se dissessem: -Esse negro é meu, eu vi primeiro!
    Três coelhos- minto - três onças numa cacetada só - minto novamente - em duas cacetadas!...
* * *
 
    E a moral do  Ananias, esfolando sua onça junto com o Civilico e o Miguel:
    -E ocêis dois? Ocêis qué sabê pur que onça - o mais nobre dos animar do Brasir -  gosta de carne di preto e não di  carni di branco?
    -Ihhh... sei lá - resmungou o Civilico.
    -Piff... nem imagino - retrucou o Miguel.
    -É pur que onça só gosta de carne de primêra!
    -!!!
* * *
     À partir de então, bastava o Civilico passar lá na igrejinha de manhã, lá estava o Ananias, como um rei africano, tomando banho de sol, com seu colar de presas ornando o pescoço,  deitado sobre o  lustroso couro da onça que abatera.
     Caros leitores, esse é o tal do Ananias!
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