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-CIVILICO,
Ô CIVILICO, VEM
CONTAR
UMA MENTIRA!
“Estas
figuras de narrativas populares não
se fixam. Transforman-se de
uma região
para outra, de uma época pra outra
época. Absorvem temas
componentes
de outras histórias. Mudam de
nome. Entretanto, conser-
vam um
substracto ideal, um fundo conceptivo que
pode ser universal e
perpétuo,
ou nacional, ou regional. Procurar esse fundo
debaixo das va-
riantes, das
contaminações, das fragmentações,
é tarefa indispensável quan-
do trata de
se conhecer como e por que vias se formou
um desses tipos.”
(Amadeu Amaral-Tradições
Populares)
Afinal, quem foi esse tal de
Civilico — perguntarão as novas gerações? Talvez um
cidadão como outro qualquer, não fosse ele um artista popular
nato e talentoso. Renato C. Campos em “Ideologia dos Poetas Populares do
Nordeste”, se referindo aos personagens mentirosos declara que sempre foi
do agrado popular a figura do herói ladino e astucioso, e que este
é um personagem encontrado até nos grandes poemas épicos.
O nosso Civilico, guardada as devidas proporções, não
foge à regra, com a relevante diferença de ser um personagem,
ao contrário, por exemplo, do inescrupuloso Pedro Malazartes, não
amoral nem anti-herói. Com certeza, foi o tipo popular mais cultuado
em toda a história desta cidade, possuindo um lugar de destaque
entre nossos vultos folclóricos. Seu nome, outrora, com a fama alastrante
de contador de mentiras, ganhou foros de “lugar comum”, a ponto de as pessoas
sempre lançarem mão dele quando queriam denunciar qualquer
sujeito que desandasse a dizer coisas absurdas e duvidosas — se lá
vinha mentira, nunca deixava de faltar o protesto: -Ô, Civilico!
Quem o conheceu pessoalmente,
atesta a sua fama de cômico entretedor e hábil narrador de
causos, em que na maioria das vezes o leit-motiv eram as caçadas
e pescarias que fazia. Profissão antiga esta — nascida talvez com
os velhos Maddahs —, contadores profissionais de histórias das cavernas
da Arábia. Civilico, como pude constatar, em nada ficava devendo
ao grande Pantaleão, personagem do Chico Anysio, ao ótimo
Rolando Boldrin, e mesmo ao humorista caipira, o cômico Barnabé.
Civilico, provavelmente, foi um discípulo do grande pioneiro contador
de causos Cornélio Pires, com a diferença de que seu personagem
era ele próprio. O humor impagável era algo arraigado em
sua essência, a própria razão de ser do contador
de causos que era — talvez a tônica de sua vida, lembrando nisto
o humorista Pontes, personagem de um conto de Monteiro Lobato em “Urupês”,
embora o Civilico nunca tenha matado alguém de rir ao pé
da letra, como o fizera Pontes. A narração de façanhas
incríveis e absurdas, o rico anedotário, a ironia profunda
e o carisma incontestável trouxeram-lhe a fama. Onde quer que estivesse
ou chegasse, dizem seus contemporâneos, intimavam-no a debulhar o
seu rico rosário de causos, e ele não se fazia de rogado
— desfiava seu repertório de narrativas por longas horas se preciso
fosse.
Esse nosso herói,
sobrevive hoje como personagem de literatura, como, p. ex., o personagem
de Cornélio: o famoso e já meio esquecido Joaquim Queima
Campo, que existiu na realidade, e se chamava Joaquim Bentinho, amigo de
mocidade de Cornélio, no qual esse humorista de Tietê se inspirou,
além também de ter mirado-se em seu pai Raimundo e um certo
Joaquim Capivara da velha Sorocabana, para fazer o seu típico personagem
que correu o Brasil nos meados da primeira metade deste século.
O mesmo se passou com o personagem Romualdo, do grande folclorista Simões
Lopes Neto. Dantas Macedo em “Cornélio Pires-Criação
e Riso” diz que “todos os países tem têm tipos assim, todos
os Estados brasileiros possuem esses homens de imaginação
e fluência verbal notáveis, cujos causos a gente ouve com
fascinação”.
O Ciclo Civilico, ou seja, o período
em que ele granjeou fama como contador de causos, se iniciou, provavelmente,
na pequena Araras dos meados dos anos 40, findando no início dos
anos 80, quando adveio sua morte; a partir daí, sua figura foi saindo
aos poucos de cena e sua memória caindo no esquecimento.
Entre nós, os mais conhecidos mentirosos
estrangeiros na literartura oral, são o lendário Barão
de Münchausen e o folclórico Pedro Malazartes, ambos de origem
européia, sendo este último abrasileirado há tempos.
Seus análogos no Brasil são o João Grilo, no nordeste
do país, o personagem de Simões Lopes Neto no sul e,
logo após, o de Cornélio Pires.
Como pude confirmar, lendo
diversos livros de anedotário popular e histórias de
contadores de patacoadas, uma mesma história, geralmente com variantes,
era encontrada em mais de um livro, narrada por diversos autores e vivida
por diferentes personagens. Constatei que dois mentirosos de cidade vizinhas
podiam estrelar uma mesma história. Não cabe, nesta pequena
introdução, expor algumas delas ou entrar em minúcias
sobre quem é o verdadeiro autor de uma determinada história,
que muitas vezes é do domínio popular e mesma vinda de além-mar,
mas só para citar um exemplo simples, a espingarda de cano curvo
do Mazzaropi, encontra analogia num velho mentiroso piracicabano — o Zé
da Curva — numa história mais antiga que o filme desse cinesta e
ator brasileiro, e no próprio Civilico. Amadeu Amaral, se referindo
ao popularíssimo conto caipira, o “Jogo do Pira”, conclui: “O
tema deste caso pertence à tradição popular. Recordo-me
bem de já o ter encontrado há muito numa historieta carioca,
no qual, sempre como acontece com este gênero de narrativas, o papel
principal era atribuído a um indivíduo conhecido”. Simples
é constatar que tudo o que é de domínio público
e da tradição oral pode ser creditado à ninguém
e à todos ao mesmo tempo. Histórias úbiquas se adaptam
à todas as regiões onde apareçam. As histórias
populares são como aves de arribação — não
conhecem fronteiras ou limites. Dependendo do caso, é insensatez
falar-se de plágio quando o assunto é mentira e mentirosos.
Lembremos que o próprio Cornélio Pires, criador de um dos
mais notáveis mentirosos brasileiro, meteu a mão em muita
coisa do anedotário universal, inclusive escritores de quilate,
como Mark Twain, como atesta Dantas Macedo na biografia do próprio.
O escritor Alcyr Mathiensen recolheu uma história do Civilico em
um livro seu sobre Araras, que guarda uma certa semelhança
com outra publicada num compêndio de piadas dos EUA editado
em 1808, intitulado “O Clube Divertido”! Richard Dorson, professor de história
e folclore norte-americano em “American Folklore”, se referindo ao mentiroso
Barney Beal, morto em 1899, constatou em 1956: “(...) os contos a seu
respeito continuaram a aumentar, e alguns encerram motivos folclóricos
internacionais (...)”. Note-se: novas histórias de alguém
que já morreu! O mesmo ressalta: “(...) Anedotas vinculam-se
a personagens excêntricas locais em todas as cidades do interior(...).
Parte do que me foi narrado sobre o Civilico e a ele creditado, são,
diríamos, “causos de arribação” que vieram de outros
lugares trazidos por forasteiros e que foram absorvidos por nosso povo,
e também histórias que foram coletadas em livros e cairam
no cotidiano difundindo-se como anedotas. Houve casos de colaboradores,
letrados inclusive, que talvez, no afã de ver algo de seu conhecimento
publicado na minha coluna, vieram me narrar histórias já
consagradas de outros autores e piadas comuns, adaptadas por eles ao Civilico,
de quem eu desconhecia a paternidade, e só fui descobrir posteriormente.
Como se pode notar, essa mistura de origens orais e impressas podem
ocorrer natural ou intencionalmente, e surgirem novas versões. Porém,
os versados em Civilico, saberão reconhecer suas histórias
originais.
Em face disso tudo, procurei
ter o cuidado de não incluir neste compêndio, histórias
que recolhi e que, sabidamente, pertenciam à outros narradores de
patacoadas — fato que só fui atinar recentemente, nestas pesquisas
mais apuradas a que me refiro acima —, com exceção daquelas
que divergiam acentuadamente da original mais antiga. É provável
que algo tenha me escapado, e não descarto a possibilidade de ter
publicado uma história semelhante que já tenha sido publicada
por outro escritor . Por outro lado, o número recolhido, até
então, de histórias originais, se é que todas eram,
de nosso representante ararense, não foi tão vultuoso a ponto
de se manter uma coluna semanal num jornal, como fora minha intenção,
e, nessa peneirada ,as que passaram por meu crivo não chegavam mesmo
à um número expressivo para se compor um volume satisfatório
como o deste livro. Sendo assim, uma vez que, a partir de então,
o Civilico fora transformado num personagem de literatura, tomei
a liberdade de criar novas histórias, seguindo o seu estilo, onde
coisas e fatos mais ou menos verdadeiros se misturam com histórias
apócrifas. Foi intencional colocar na contracenação,
pessoas que conviveram ou não com ele. Os sobrenomes de famílias
tradicionais ararenses recheiam as histórias. Também
grandes vultos da arte de mentir, locais ou estrangeiros, contracenam ou
irão contracenar com ele em futuras histórias, obviamente
atemporais.
As histórias que
compõem o primeiro livro do Civilico foram publicadas semanalmente
no jornal “A Tribuna do Povo”, aos sábados, no período de
3/96 a 4/97.
Wenilton Luís Daltro
(Extraido e adaptado do livro homônimo)
"PERFIL
DO CIVILICO"
Hábil contador de causos, mentiras e piadas;
gracejador; empreendedor de façanhas homéricas e absurdas,
sempre levando vantagem no desfecho das histórias, e, também,
nas disputas com rivais do gênero. Prestativo e de boa índole.
Vingativo, às vezes, quando o obrigam a ser, porém, sem prejuízo
do rival. Contrariado, caso duvidem da veracidade de suas histórias.
Costuma coçar o gorgomilo quando duvida da história alheia.
Linguagem dialetal caipira. Não anti-herói nem amoral. Culto,
esperto e imaginativo; astúcia e engenhosidade "mac-gyveriana".
Benzedor, inclusive de fauna e flora. Caçador e pescador, sem prejuízo
do ambiente. Ecologista, agricultor, criador de animais, passarinheiro,
zootécnìco amador. Expert em fauna e flora. Músico
polivalente, poeta e declamador. Desenhista, inventor, pintor, futebolista,
frasista e trocadilhista, peão e domador, etc. Em suma , um homem
dos sete instrumentos. Personagem inspirado em contador de causos verdadeiro,
típico das regiões canavieras do leste paulista.
Aqui,
cumpadre,
uma foto rara do
verdadeiro Civilico!
"Personagem registrado na Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro"
"Quem viu, viu, quem não
viu não vai ver mais. Agora, nem verdades nem mentiras".
(A esposa do verdadeiro
Civilico, no dia de seu sepultamento em 1984)
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