Não
é uma tarefa simples falar de Wenilton
Luís Daltro, vulgo “Cobrinha”,
apelido que ele jura nada ter a ver com suas habilidades, como crêem
os amigos, mas devido ao seu invejável físico, que ele diz
ter herdado do esquálido Lamartine Babo,um dia quando este fugia
do cemitério... Esse artista — criador incansável por
excelência —, violonista compositor; desenhista; biólogo,
amador de aves, árvores e insetos; escritor, frasista inveterado
e folclorista diletante, parece, artisticamente falando, querer aprender
tudo o que o atrai, como se fosse viver para sempre, e produzir como se
a Parca já o esperasse com o alfange aos pés de sua cama
.Conheci-o há tempos quando veio visitar esta cidade atrás
de um ídolo seu já falecido, e nos tornamos grandes amigos.
Grande alter-ego esse Cobrinha, pessoa que, com prazer, me comunico com
freqüência em altos papos cabeça. Hedonista, crê
que a felicidade é o maior prazer que se possa sentir, e o mais
difícil de atingir em sua plenitude. Sonhador, disse-me que quer
transformar sua terra num imenso pomar das mais variadas frutas nativas,
só para promover a sinantropia da fauna e fazer com que certas espécies,
em especial as aves, venham das matas e passem a dividir em paz o seu dia-a-dia
com o homem urbano — “neste mar de canaviais e matas mirradas a saída
é trazer a montanha até Maomé” —, sentencia malicioso...
Prestativo como
poucos, porém só não admite ser importunado na sagrada
hora dos crepúsculos dos finais de semana, quando é visto
solitário e perdido em vagos cismares pelos derradeiros arrabaldes
naturais da cidade, com seu inseparável binóculo, ouvindo
André Geraissatti, lendo Fagundes Varella, que ele considera deuses,
e degustando à vezes uns tragos da sua sagrada Leão do Norte.
É o seu ângelus do cotidiano, hora que ele não
divide pessoalmente com ninguém; quebra o encanto — é como
Jesus no horto —, somente à sós, conclui. Nestas horas, como
ele diz , com o cérebro embuido em ondas alfa e embebido pela
dopamina; hiperestésico e telúrico, diz ser completamente
envolvido pelos, pasmen, raros fenômenos da Qualia e do filosófico
Weltchmerz!
Aos finais de semana, munido de máquina fotográfica,
caderno e gravador, devassa fazendas e os derradeiros sertões, em
busca da fauna e a flora, velhas arquiteturas remanescentes e histórias
e depoimentos de gente antiga da roça. Seresteiro, é flagrado,
à vezes, pelas botequins empunhando seu inseparável violão,
que de tanto executar peças malabarísticas, sofreu recentemente,
uma rara contusão nas mãos, que atende pelo sugestivo nome
de Distonia Focal! Sereno e pacato, calmo como o olho do tufão —
como ele se proclama —, é uma usina de criação, cabeça
caldeirão fervilhante de idéias. Nunca está contente
com as coisas como elas estão, quer sempre recriar, inovar, melhorar
— “o que deve ser feito, deve ser bem feito” —, é o seu bordão.
Se Monteiro Lobato, sob os protestos de sua sobrinha, queria colocar torneirinhas
na teta das vacas, ele, com certeza, iria querer dar um jeito
de ir além, e fazer o ruminante deitar leite de aveia, só
para ter o prazer de agradar as morenas sertanejas. Convenhamos — um sujeitinho
dado aos exageros!
Esse homem dos sete instrumentos, diz que, apesar de pensar globalmente,
o que age localmente, por melhor que o faça, não surte sequer
efeitos "el ninos" provincianos, no máximo tempestades em
copos de água que logo se dissipam... Sonrisal dá mais ibope,
desabafa...Contenta-se com a reconhecimento de sujeito esforçado,
que sacrifica a própria vida na desgastante e solitária labuta
a que são relegados o que se aventuram pela área da criação
artística e da pesquisa de campo.
Pessimista ciorânico, crê que o destino do planeta, inevitavelmente,
não é dos melhores. Diz que, na realidade, ninguém,
em geral, gosta de terra, bicho e mato — só querem lucrar mesmo
é lucrar com cada centímetro quadrado de chão, tudo
devidamente asfixiado por camadas de asfalto e concreto. Jura ouvir nas
noites caladas das cidades grandes, o lamento das cigarras soterradas pelas
cidades. Viciado irremediavelmente em leitura, já se flagrou lendo
quando subia uma escada! Ufa!, não era uma escada de pintor
de paredes... uma rolante vá lá, o que também não
era o caso... Me contara que um velho professor seu, dizia que ele quando
criança era meio cabisbaixo. Infelizmente esse docente ignorava
que, durante o dia, ele procurava as chaves de São Pedro pelo chão,
e, à noite, em posse delas, podia tranqüilo olhar para cima
e desvendar os mistérios do estrelado firmamento.
.
Costuma ver e ouvir o que poucos são capazes de notar, isto,
simplesmente porque — frígidos e atímicos —, ninguém
sabe ver e ouvir, e não sabem o que perdem, alfineta. Se deslumbra
com nuvens nacaradas; fenômenos parélio; fogos-fátuos
; ovnis; cantar de grilos e cigarras; sinfonia de batráquios nos
brejais; a eufonia do silêncio; a música das areias
dos desertos; o mato crescendo em paz; no silêncio dos sertões,
as lufadas noturnas de ar que trazem um apanhado assustador de vozes selvagens;
relâmpagos intra-nuvens; revoadas de andorinhas purple martin
e de içás — que provara na infãncia e não vê
a hora de degustar novamente; turbilhões de efêmeras a bailar
pelo leito do velho rio Mogi Guaçu; etc,etc.
Teima que, como o pintor Turner, se amarraria no mastro de um navio
durante uma tempestade, só para ter o prazer de se deleitar com
o incrível visão da avassaladora borrasca! Em suma, olha
aí uma avis rara, dotada de uma sensibilidade incomum, que à
muitos poucos é dado possuir! Como podemos notar, é complicado
uma afinidade eletiva para um homem como este. Esse é o Cobrinha,
tal como o cantor Gonzaguinha - eterno moleque - laureado com as saudáveis
dádivas da Neotenia - fenômeno que faz os artistas viverem
numa eterna meninice! Enfim, após uma longa gestação
e lapidação, eis o seu primeiro livro, dos muitos que há
muito vem planejando, livro este que vem fazer redivivo um personagem folclórico
muito querido entre a velha guarda ararense, que, injustamente, já
ia resvalando pela ladeira do esquecimento — o cômico “Civilico”.
Cobrinha Azul (esse é o nome do personagem televisivo que lhe rendera
o apelido), sucesso, e que seja este livro o primeiro de uma série.
Queremos mais, muito mais! Arte longa e vida mais longa ainda, irmão!
Evoé!